Imagine uma floresta submersa, cheia de vida, onde milhares de espécies de peixes, moluscos, algas, crustáceos convivem lado a lado, formando uma comunidade complexa e cheia de interações. Essa “floresta” existe no oceano e tem um nome: recife de coral. Apesar de ocupar menos de 1 % da área dos oceanos, os recifes abrigam cerca de 25 % das espécies marinhas conhecidas, servindo como áreas de reprodução, alimentação e abrigo para inúmeros organismos, além de sustentarem cadeias alimentares complexas e atividades humanas como a pesca e o turismo.
Os recifes de corais desempenham um papel fundamental do ponto de vista biológico. Seus principais construtores são os corais verdadeiros (escleractíneos), organismos capazes de secretar carbonato de cálcio, formando uma estrutura rígida que constitui o “esqueleto” do recife. Essa estrutura funciona como um verdadeiro arranha-céu do ambiente marinho, oferecendo abrigo, alimento e suporte para uma grande diversidade de organismos.
O maior problema dos recifes atualmente é o aquecimento dos oceanos. Quando a água do mar fica mais quente do que o normal, intensificado pelas mudanças climáticas, os corais sofrem um processo conhecido como branqueamento.
O branqueamento ocorre porque os corais vivem em uma relação simbiótica com algas microscópicas chamadas zooxantelas. Essas algas realizam fotossíntese e “alimentam” o coral com compostos orgânicos (açúcares), além de dar cor à colônia. Quando a temperatura sobe demais, essas algas ficam estressadas e começam a produzir moléculas tóxicas. Para tentar sobreviver, o coral expulsa as algas. Sem elas, ele perde a cor (fica “branco”) e, mais importante, perde sua principal fonte de energia. Se as condições normais não retornarem rapidamente, o coral pode morrer.
De acordo com a Revista Fapesp, uma onda de calor marinha causou mortalidade extrema nos recifes em várias partes do mundo em 2024. No Brasil, especialmente na região Nordeste, os cientistas observaram 96 % dos corais branqueados e grande parte deles mortos. Em locais como Maragogi, em Alagoas, cerca de 88 % morreram depois de serem submetidos a temperaturas acima da tolerância.
Assim como existem espécies que apresentam diferentes tolerâncias ambientais (por exemplo, plantas de clima frio que não sobrevivem ao calor intenso sem estresse), o mesmo vale para os corais: algumas espécies são mais resistentes ao calor, enquanto outras são extremamente sensíveis. Identificar essas diferenças ajuda os pesquisadores a entender quais indivíduos sobrevivem melhor e por quê.
Esse tema lembra um pouco o que vemos em ecologia e genética: uma população que sofre pressão seletiva tende a variar em resistência, e características favoráveis podem se tornar mais comuns ao longo do tempo.
Apesar desses esforços, a restauração de recifes não é simples nem garantida. Projetos de restauração enfrentam limites de escala (é difícil restaurar grandes áreas), altos custos e a ameaça constante de novas ondas de calor. Estudos científicos apontam que, sem frear o aquecimento global, muitos recifes simplesmente não conseguirão se recuperar por conta própria.
Ref: https://revistapesquisa.fapesp.br/pesquisadores-buscam-restaurar-recifes-de-coral-dizimados-por-ondas-de-calor/

