Do laboratório para a ficção: biologia, vírus e estética em The Beauty

⚠️ Alerta de spoiler!

A nova série da Disney, The Beauty (no Brasil, Lindos de Morrer), provoca desconforto ao propor uma ideia sedutora e, ao mesmo tempo, perturbadora: uma infecção sexualmente transmissível causada por um vírus capaz de alterar o DNA humano e tornar as pessoas fisicamente mais bonitas. A promessa de uma solução imediata para padrões estéticos surge, na narrativa, associada ao sexo sem proteção e a uma consequência aparentemente positiva. No entanto, como a própria Biologia nos ensina, nenhuma interação entre organismo e patógeno ocorre sem custos, e a série deixa isso claro ao conduzir os infectados a um colapso fisiológico extremo.

Quando falamos em ISTs virais no mundo real, estamos lidando com agentes já bastante conhecidos da Biologia. Herpes genital, AIDS, condiloma acuminado (HPV) e as hepatites B e C são exemplos clássicos de infecções sexualmente transmissíveis causadas por vírus. Esses agentes possuem estratégias específicas para invadir células humanas, utilizar sua maquinaria molecular e se multiplicar. Embora nenhuma dessas infecções tenha como efeito “embelezar” o hospedeiro, todas elas demonstram algo fundamental: vírus são capazes de interferir profundamente no funcionamento celular, alterando padrões metabólicos, respostas imunológicas e, em alguns casos, até a expressão gênica das células infectadas.

Na série, um dos sinais mais marcantes da infecção é o aumento intenso da temperatura corporal. Na Biologia real, a febre é uma resposta bastante comum durante infecções virais e bacterianas. Ela ocorre porque substâncias liberadas durante a resposta imune atuam sobre o hipotálamo, elevando o ponto de ajuste térmico do corpo. Essa elevação da temperatura não é um erro do organismo, mas uma estratégia adaptativa, já que temperaturas mais altas aumentam a eficiência das células do sistema imunológico e dificultam a replicação de muitos patógenos. Em The Beauty, esse mecanismo aparece de forma exagerada e descontrolada, levando à falência do organismo, mas parte de um princípio fisiológico real e bem estabelecido.

O ponto mais instigante da série, no entanto, está na ideia de modificação do DNA humano. Embora apresentada de forma fantasiosa, essa noção dialoga com processos biológicos reais. O HIV, por exemplo, é um vírus de RNA que, ao infectar uma célula humana, utiliza a enzima transcriptase reversa para produzir uma molécula de DNA a partir de seu RNA. Esse DNA viral é então integrado ao genoma da célula hospedeira, passando a comandar a produção de novos vírus. Nesse sentido, há sim uma modificação do DNA celular, ainda que com fins exclusivamente reprodutivos do vírus, e não para melhorar características do hospedeiro.

Além disso, a própria biotecnologia moderna se apropria dessa capacidade viral de inserir material genético em células. Vírus geneticamente modificados são amplamente utilizados como vetores gênicos, transportando genes de interesse até células-alvo em pesquisas de terapia gênica e no desenvolvimento de vacinas gênicas. Nesses casos, o vírus é cuidadosamente alterado em laboratório para perder sua capacidade patogênica e servir apenas como veículo de informação genética. A série extrapola esses princípios ao sugerir um controle amplo, rápido e esteticamente direcionado do DNA humano, algo que está muito além dos limites biológicos atuais.

The Beauty é, portanto, uma obra de ficção científica, com inúmeros elementos incompatíveis com a Biologia real, mas que acerta ao provocar reflexões importantes. Ela expõe os riscos de soluções fáceis, a ilusão de controle absoluto sobre o corpo humano e as consequências de ignorar a complexidade dos sistemas biológicos. Ao mesmo tempo, oferece um excelente ponto de partida para discutir virologia, imunologia, genética e biotecnologia de forma integrada, crítica e contextualizada.

Fica a dica de série — e o convite: assistam, reflitam e depois contem pra gente o que acharam. Do ponto de vista social, estético e político, a narrativa é provocadora. Do ponto de vista biológico, é um prato cheio para quem gosta de pensar ciência para além do laboratório.

Larissa Torres
Professora da Neuralia

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